Hipótese sobre a origem do Ovelheiro Gaúcho

Texto elaborado com os resultados de 5 amostras analisadas em nov/2020. Agora temos mais 6 resultados que ainda precisam ser integrados nesta análise, provavelmente, resultará em um novo post!


Com base nos resultados obtidos até agora e mesmo sendo uma amostra muito pequena, e, olhando para a história da imigração para o Brasil e da própria composição das raças que formam o Ovelheiro Gaúcho, vou tentar criar uma hipótese de formação desta raça que tanto amamos.

Importante dizer que ainda faremos testes em mais cães para tentar reforçar ou abandonar esta hipótese!!

Em primeiro lugar, vamos tabular os resultados obtidos.

RaçaMédiaDakotaKodaFantaBiaOzzy
Old Time Scotch Collie *31,8%34,5%30,6%28,9%51,0%14,2%
Collie *32,2%32,9%33,9%31,4%28,1%34,7%
Border Collie3,0%0,0%0,0%0,0%0,0%15,1%
Pastor de Shetland *7,9%7,8%7,1%9,0%6,1%9,3%
Pastor Australiano (Aussie)3,3%7,0%9,3%0,0%0,0%0,0%
Cimarron Uruguaio4,5%5,4%4,1%8,2%0,0%4,7%
Supermutt **17,3%12,40%15%22,5%14,8%22,0%
composição dos cães testados

Pelo menos 3 raças estão presentes em todas as amostras e representam mais de 70% da composição, sao elas: Old Time Scotch Collie, Rough Collie em maiores proporções e o Pastor de Shetland com uma contribuição mais modesta. As demais raças, acredito que representam variações geográficas e sociais com influencia bem pequena no fenótipo do Ovelheiro Gaúcho ou até mesmo representando pequenos traços genéticos comuns a várias raças.

Mas o importante é notar que o Scotch Collie, Collie e Pastor de Shetland, possuem todos a mesma origem e ancestralidade – cães escoceses.

** Supermutt – o que significa ?
Representam uma contribuição genética de cães nativos de uma determinada região, porém pequenas o suficientes para serem detectadas mas não sendo possível associar a nenhuma raça específica.
Mesmo assim o laboratório conseguiu identificar alguma coisa e que eles acreditam pertencer a determinada raça.

DakotaKodaFantaBiaOzzy
Pastor AlemãoOld English SheepdogPastor AlemãoSilken WindhoundPastor Alemão
Cardigan Welshi CorgiNova Scotia Duck Tolling RetrieverBearded ColliePastor AustralianoCardigan Welsh Corgi
Pembroke Welsh CorgiSilken WindhoundPastor AustralianoPembroke Welshi CorgiNova Scotia Duck Tolling Retriever
Blue Heeler
Tabela de supermutt

O Pastor Alemão aparece em 3 amostras, Corgi também em 3 amostras, Pastor Australiano, Nova Scotia e o Silken Windhond em 2 amostras.

Agora com essas informações, vamos estudar um pouco sobre a histórias das 3 principais raças que formam o Ovelheiro Gaúcho: o Old Time Scotch Collie, o Collie e o Pastor de Shetland!

O Antigo Pastor Escocês e o Old Time Scotch Collie

Pouco se sabe sobre sua origem, mas há um consenso geral que eles se originam dos antigos cães Pastores Escoceses que se formaram a partir de cães pastores romanos, cães nativos celtas, e spitzes de pastoreio viking.

O Old Time Scotch Collie é uma raça muito antiga surgida na Escócia para pastorear, conduzir e proteger os rebanhos de ovelha. Há relatos que no final do século 1700’s estes cães já eram muito parecidos com o que temos hoje em dia

Sua popularidade cresce muito nos anos 1800’s tanto na Grã Bretanha quanto no exterior, especialmente no Novo Mundo (América do Norte, devido a grande emigração de escoceses e irlandeses para o norte dos USA). Nesta mesma época começa a separação de exemplares de trabalho e de exposição, o que acabou levando um declínio do OTSC original a poucas fazendas.

Ate hoje o OTSC não é reconhecido como uma raça pela FCI. A criação e o desenvolvimento da raça, desde os tempos antigos, não visaram uma padronização morfológica, mas priorizavam sim a capacidade de trabalho, de pastorear e temperamento leal ao dono. Muito semelhante com a história do Ovelheiro Gaúcho, que surge naturalmente nas fazendas com criações mais focadas nas qualidades de trabalho aliado ao temperamento amigável com a família.

Podemos dizer que dos antigos Pastores Escoceses descendem todas as variações de Collies, como o próprio OTSC, o Collie de Pelo Longo ou Curto, o Pastor de Shetland, Border Collie, English Shepherd…

Acima uma imagem de um exemplar dos anos 1800’s e abaixo uma foto histórica e uma atual do Old Time Scotch Collie.

Atualmente existe um grande movimento nos USA para restaurar os remanescentes do OTSC, localizando em fazendas e bolsões de cães com origem escocesa, de acordo com os destinos de emigração dos anglo-saxões nos anos 1800’s.

Collies ou Rough Collies

Historicamente é difícil falar de sua origem, assim como no OTSC, mas também é consenso geral que a raça surge no Escócia e País de Gales, com os mesmos ancestrais do OTSC (pastores romanos e celtas, e, spitz viking), portanto, sendo de mesma idade, ou, anos 1700’s. Originalmente eles eram cães pastores grandes, fortes e mais agressivos. Provavelmente as pequenas diferenças entre o OTSC e o Rough Collie antigos se devam a diferentes proporções de genéticas dos mesmos ancestrais. Muitos consideram como sendo a mesma raça, justamente devido a ancestralidade comum, sendo fruto apenas de seleção de cruzamentos.

Acredita-se que os Collies atuais são resultado de uma seleção de cães OTSC, ocorrida por volta dos anos 1900’s, com maior aptidão para exposições, com maior beleza e temperamento dócil em detrimento a habilidade de trabalho. Com o passar do tempo, estes dois cães foram considerados raças distintas.

No País de Gales (oeste da Inglaterra), havia um cão pastor com as mesmas características do escocês, porém eles eram menores, mais agéis e domesticados.

Esta duas raças acabam sendo cruzadas gerando uma linhagem inteligente, mais domesticável, um pouco menor em estrutura e com pelos mais longos. Fazendo muito sucesso entre os Ingleses, e estes, desejando dar um ar mais “nobre” a raça, inseriram cruzas com o Borzoi (ascendente do Silken Windhound!), dando características “aristocráticas”, na época, muito desejada pela realeza: o rosto mais fino e triangular além do focinho fino e comprido, tornando-se um cão de exposição muito cobiçado, assemelhando-se ao Collie moderno.

Os Collies atuais podem ser de pelo curto, conhecidos como Smooth Collies ou pelo longo, os Rough Collies. Ambos são considerados Collies, e a cruza entre eles não gera cães de pelos médios, os filhotes ou nascem de pelo longo ou curto, por isso são considerados de mesma raça. Os de pelo longo serão registrados como Rough Collie e os de pelo curto como Smooth Collie.

Uma característica muito interessante dos Collies que vemos presente nos Ovelheiros Gaúcho atuais é o fato deles serem protetores da casa e gostarem muito da convivência com humanos, especialmente com as crianças.

Pastor de Shetland

Outra raça originária da Escócia, mais especificamente da Ilhas de Shetland, que ficam ao norte da Escócia mas sem relação com Rough Collie. Novamente é uma raça antiga que cuja origem não é tão clara.

Séculos atrás, o termo collie escocês era muito genérico e, uma de suas variações era pequena e adaptada paras as condições mais adversas da Ilha de Shetland que foi cruzada com o King Charles Spaniel. Já no início do século 20 James Loggie adicionou um pequeno Rough Collie ao plantel, e finalmente, chegando ao moderno Pastor de Shetland ou Sheltie.

Ancestralidade Comum

Olhem este trabalho super interessante desenvolvido pelo Old Time Scocth Collie Association, que resume a história desde os antigos pastores escoceses até os dias atuais.

árvore genealógica da família Collie


Migração para o Brasil

Depois dos períodos de migração portuguesa, portos fechados, proibição da entrada de não portugueses no Brasil colônia, em 1808 tivemos a abertura dos portos para que estrangeiros viessem para o Brasil, ja neste período, cerca de 2.000 suíços e 1.000 alemães imigraram para o Brasil, fundando as cidades de Nova Friburgo/RJ e São Leopoldo/RS, respectivamente, em 1818 e 1824.

Em 1850, com a proibição do tráfico negreiro, a quantidade de imigrantes aumenta significativamente, especial nas regiões sul e sudeste. Com a abolição da escravidão em 1888, o fluxo migratório aumenta ainda mais, com mais de 1,4 milhões de imigrantes registrados apenas no período de 1890 a 1900, considerado o dobro de 1808 a 1888.

Foi também nos anos 1800’s a grande popularidade dos cães pastores (Scotch Collie) e de exposição (no caso dos Rough Collies). Muitas famílias migraram trazendo junto seus cães de trabalho, e até, fazendeiros importando exemplares junto com importações de gado.

Aqui estou inferindo a entrada no Brasil dos Old Time Scotch Collie, Rough Collie e Pastor de Shetland a partir dos anos 1850, juntamente com migração européia, fazendo de São Leopoldo a porta de entrada para os 3 tipos de cães escoceses.

O supermutt relativamente alto se adequa ao que temos na história que conhecemos que eles se misturaram com cães nativos do Rio Grande do Sul

Esta mistura de cães nativos com os cães escoceses formam a base do Ovelheiro Gaúcho mas, devido sua formação mais natural com o foco muito maior na capacidade de trabalho, provavelmente surgem duas linhagens no Rio Grande do Sul, com pequenas variações em função do meio ambiente e do território geográfico que seguiram as matilhas.

Mapa das linhagens de Ovelheiro Gaúcho

Provavelmente os Ovelheiros criados nas regiões norte, noroeste e nordeste do estado possuem mais características das 3 raças escocesas originais, com um pouco de miscegenação com cães nativos.

Ja a linha que segue para o sul e sudoeste do estado, possuem uma contribuição mais recente do Pastor Australiano, que acredito aconteceu nos anos 1950, e anterior a isso, temos a contribuição do Cimarron Uruguaio.

Estas duas contribuições regionais ocorrem em fazendas, novamente, onde o foco era ter um bom cão para pastorear o gado em campo aberto e proteger o rebanho. Era necessário cães fortes e inteligentes.

A história do Cimarron explica sua pequena participação nesta linhagem sulista dos Ovelheiros.

De origem incerta, sabe-se que ele descende de cães portugueses, como o Cão da Serra da Estrela e o Cão Fila de São Miguel, e cães espanhóis usados na colonização da região. Durante a guerra de independência do Uruguai, no fim do século XVIII e início do século XIX (mesmo período da migração européia para o Brasil), os cães foram abandonados e tornaram-se uma matilha selvagem de grande tamanho causando problemas para os humanos. Em 1792, o governo da época autorizou e promoveu o abate de cerca de 300.000 cães selvagens. Algumas matilhas conseguem fugir para o nordeste, norte e noroeste do país, região fronteiriça com o Rio Grande do Sul.

Em certo ponto, fazendeiros uruguaios, pressionaram o governo para liberar a criação do Cimarron. Assim eles voltam a ser domesticados, servindo como cães boiadeiros, sendo introduzidos no RS, principalmente nas cidades de Bagé e Jaguarão.

Neste ponto é provável que os Cimarrones, tiveram contato com as primeiras linhagens sulistas do RS, e cruzamentos não intencionais podem ter ocorrido.

Portanto, o período de 1800 a 1900 é crucial para o surgimento do Ovelheiro Gaúcho, envolvendo fatos históricos importantes, como a imigração européia e a guerra de independência do Uruguai, bem como os deslocamentos das matilhas das raças escoceses dentro do estado.

De nenhuma forma podemos segregar estas duas linhagens, pois ambas são a mesma raça e ajudam na variabilidade genética necessária para um crescimento saudável da raça!

Bom, esta é minha humilde hipótese sobre a origem da nossa raça. O que vocês acham? compartilhem suas opiniões!


Para a elaboração deste texto usei: pesquisas na internet, conversas com amigos (criadores de ovelheiros), o antigo blog da ACOG (Associação dos Criadores de Ovelheiro Gaúcho) do qual me recordo de muitas leituras, a página da Old Time Scotch Collie Association, que esta desenvolvendo um belo trabalho de recuperação da raça nos Estados Unidos e a, também antiga, página do Canil Reculuta da Élen Nunes Garcia

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